O agronegócio ocupa uma posição singular entre os setores com maior presença em empresas familiares brasileiras. Décadas de trabalho na terra constroem não apenas patrimônio, mas identidade familiar e vínculos emocionais profundos com a atividade produtiva. Rodrigo Gonçalves Pimentel, filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel, examina que essa dimensão afetiva, embora legítima e compreensível, frequentemente impede que famílias rurais avaliem com objetividade o momento em que manter a produção direta deixa de ser a decisão patrimonialmente mais inteligente. A migração para o arrendamento de longo prazo representa, em muitos casos, a forma mais eficiente de preservar o valor da terra sem expor o patrimônio aos riscos inerentes à operação agrícola direta.
Quais são os principais riscos da produção agrícola direta para o patrimônio familiar?
A produção agrícola direta concentra em uma única estrutura familiar uma combinação de riscos que, em outros setores, seriam distribuídos entre diferentes agentes econômicos. Conforme detalha Rodrigo Gonçalves Pimentel, o risco climático, representado por secas, geadas e eventos extremos que destroem safras inteiras, é absorvido integralmente pela família quando não há contratos de arrendamento que transfiram essa exposição para o operador. O risco de mercado, materializado nas oscilações de preço das commodities agrícolas, impacta diretamente a receita da família sem que haja mecanismos de proteção equivalentes aos que contratos de longo prazo com travas de preço oferecem.

Há ainda o risco operacional, que se intensifica na transição geracional. A produção agrícola de alta eficiência depende de conhecimento técnico específico, relacionamentos com fornecedores e compradores e uma capacidade de gestão que leva anos para ser desenvolvida. Quando nenhum herdeiro possui vocação ou preparo para assumir essa operação, manter a produção direta significa transferir para a próxima geração não apenas a terra, mas toda a complexidade e o risco de uma atividade que ela não escolheu e para a qual não está preparada.
Como o arrendamento de longo prazo transforma o perfil de risco do patrimônio rural?
A conversão de uma fazenda produtiva em um ativo arrendado redistribui de forma estrutural os riscos e as responsabilidades da atividade agrícola. Na concepção de Rodrigo Gonçalves Pimentel, ao celebrar contratos de arrendamento de longo prazo com operadores especializados, a família transfere o risco climático, o risco operacional e boa parte do risco de mercado para o arrendatário, que passa a responder pela produção e pelos seus resultados. A família mantém a propriedade da terra, que continua se valorizando, e passa a receber uma renda contratualmente garantida, independentemente das oscilações da safra.
O uso de travas de preço nos contratos de arrendamento acrescenta uma camada adicional de previsibilidade ao fluxo de receita. Ao fixar o valor do arrendamento em contratos indexados a indicadores de mercado com mecanismos de proteção contra variações extremas, a família garante uma receita estável que pode ser projetada com razoável precisão para os anos seguintes, facilitando o planejamento financeiro e a distribuição de dividendos entre os herdeiros de forma organizada e previsível.
Como os ativos rurais arrendados se integram à estrutura patrimonial familiar?
A renda gerada pelo arrendamento rural se enquadra perfeitamente no perfil de fluxo que pode ser organizado dentro de um fundo familiar estruturado como FIP. Ao integrar os contratos de arrendamento e as receitas por eles geradas dentro de uma estrutura de alocação profissional, a família elimina a necessidade de cada herdeiro monitorar individualmente os ativos rurais e negociar diretamente com arrendatários. O gestor profissional do fundo assume essa função, distribuindo a renda aos beneficiários de forma organizada e fiscalmente eficiente.
Dentro desse modelo, a sucessão do patrimônio rural deixa de envolver a transferência de terras, equipamentos e responsabilidades operacionais para se tornar uma simples transmissão de cotas do fundo que detém esses ativos. Rodrigo Gonçalves Pimentel conclui que famílias rurais que compreendem essa transformação e a executam com planejamento técnico adequado constroem uma estrutura patrimonial capaz de preservar o valor da terra por gerações, sem exigir que nenhum herdeiro precise dominar a complexidade da produção agrícola para usufruir dos resultados que ela gera.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez