Como avaliar uma pessoa desenvolvedora além do teste de código?

Sofia Eldberg
Murilo Moura Alencar

Entre os principais desafios de quem contrata tecnologia está a avaliação técnica, processo que Murilo Moura Alencar diagnostica como mais frágil do que a maioria das empresas admite. Um teste de código mostra parte da competência de quem programa, embora deixe de fora justamente o que determina o desempenho dentro de um time real. O instrumento mais usado do mercado, portanto, mede a parte menos decisiva.

Programar em produção envolve ler código alheio, negociar prazo, entender regra de negócio e decidir o que não fazer. Nenhuma dessas habilidades aparece em um exercício isolado de algoritmo resolvido sob cronômetro, situação que pouco se parece com o trabalho que a pessoa contratada vai executar na segunda-feira seguinte. A distância entre prova e rotina explica boa parte das contratações frustradas.

O que um teste de código mede de fato?

Exercícios clássicos medem familiaridade com estruturas de dados e com a sintaxe da linguagem, aspecto que Murilo Alencar frisa como relevante, porém insuficiente. Alguém que resolve problemas de grafos com agilidade demonstra raciocínio treinado, sem que o resultado informe como a pessoa se comporta diante de um sistema legado e mal documentado. Boa parte do trabalho diário consiste exatamente nisso.

Provas longas e desconectadas do produto introduzem outro problema, porque filtram por disponibilidade de tempo livre em vez de capacidade técnica. Profissionais experientes, com filhos pequenos ou emprego atual exigente, abandonam processos que pedem fins de semana inteiros, e a empresa perde justamente o perfil que buscava atrair. Processo longo também sinaliza desorganização interna a quem está sendo avaliado, e profissionais disputados costumam aceitar a primeira proposta objetiva que recebem.

Sinais de senioridade que aparecem na conversa

Uma discussão técnica bem conduzida revela mais do que qualquer exercício, e Murilo Moura Alencar enfatiza o valor de perguntas sobre decisões passadas. Pedir que a pessoa descreva um erro caro que cometeu, o que faria diferente e como descobriu o problema, expõe maturidade, honestidade intelectual e capacidade de aprender com a própria falha. Quem nunca errou de forma relevante raramente tomou decisões de peso.

Perguntas sobre trade-offs completam o quadro. Quem explica por que escolheu consistência em detrimento de disponibilidade, ou por que recusou uma abstração elegante em favor de código mais simples, demonstra que entende contexto. Respostas absolutas, sem condicional nem dúvida, geralmente indicam experiência limitada a um único cenário, com pouca exposição a restrições de custo, prazo e operação.

Entrevistas que selecionam o perfil errado

Processos construídos sobre quebra-cabeças premiam quem treinou para entrevistas, não quem entrega software. Candidatos decoram padrões de solução, repetem respostas ensaiadas e passam por filtros que pouco dizem sobre colaboração, cuidado com qualidade ou disposição para sustentar um sistema durante os anos seguintes ao lançamento. O filtro aprova habilidade de prova, e não de manutenção, justamente a competência que a empresa mais vai consumir depois da contratação.

Vieses se acumulam nesse desenho, questão que Murilo Alencar categoriza como risco direto à qualidade das contratações. Avaliadores tendem a aprovar quem lembra a si mesmos, e a ausência de critérios escritos transforma impressão pessoal em decisão técnica, com perda de diversidade de repertório dentro do time. Registrar a nota de cada etapa, com justificativa registrada, reduz o espaço dessa distorção e permite comparar candidatos semanas depois com algum rigor.

Como estruturar uma avaliação mais justa

Avaliações próximas do trabalho real produzem sinais melhores. Revisar um trecho de código com defeito plantado, discutir a arquitetura de um recurso hipotético ou corrigir um erro em um repositório pequeno revelam método, comunicação e cuidado, com duração compatível com a rotina de quem já trabalha em outro emprego durante o processo. Uma hora de conversa técnica rende mais sinal que um fim de semana de prova.

Critérios definidos antes das entrevistas sustentam a comparação entre pessoas, e Murilo Moura Alencar, C-Level e Board Member, relata ganhos quando cada etapa recebe peso e responsável declarados. Vale revisar o processo atual antes da próxima vaga aberta, porque ajustar o filtro costuma render mais resultado do que elevar a oferta financeira ao candidato.

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